Por que uma empresa nova, e parceira
Transformar de uma vez, por dentro, a empresa que deu certo costuma falhar, mas criar uma rival também. O argumento do livro para uma terceira via, e as objeções sérias que ele não esconde.
Um livro para quem precisa levar a empresa que deu certo para a era da IA: sem acabar com a liderança, sem jogar fora o legado e sem transformar tudo de uma vez.
Por João Paulo Batistella, ex-CEO da Ericsson Inovação e fundador da Eleva Technologies
A empresa investiu em IA e a proposta fica pronta em horas. Mesmo assim, o cliente espera de seis a oito dias, porque a aprovação continua passando pelas mesmas pessoas.
As decisões importantes passam por você, porque sempre foi assim que se garantiu a qualidade. Sobra pouco tempo para o que só você pode decidir.
Quem construiu a empresa teme perder o controle sobre uma ferramenta que não domina; quem coordena teme que a própria função desapareça. Nenhum desses medos é irracional.
As pessoas mais experientes passam o dia revisando e aprovando o trabalho dos outros. A atenção delas virou o recurso mais escasso da empresa.
Em vez de transformar de uma vez a empresa que deu certo, quem a construiu conduz a criação, ao lado dela, de uma empresa nova e parceira. A Original segue fazendo bem o que sempre fez. A Agêntica herda o seu legado (conhecimento, clientes, reputação, valores e veteranos) e se organiza desde o primeiro dia com pessoas apoiadas por agentes de IA. Começa pequena e cresce se provar que funciona. Se der certo, o aprendizado volta para a Original.
“Quem construiu o negócio não errou. Acertou para um mundo que está mudando.”Legado Inteligente · Capítulo 1
O apêndice do livro, em versão online: vinte afirmações sobre o gargalo, o controle, o legado e a disposição para a mudança. O resultado cruza urgência e base e indica um de quatro perfis, com o primeiro passo que faz sentido para cada um.
Fica ainda melhor respondido por três ou quatro pessoas, separadamente. As diferenças entre as respostas costumam revelar mais do que as próprias respostas.
O livro foi escrito para que o caminho possa ser percorrido por conta própria. As ferramentas do apêndice estão aqui, em versão editável, sem custo.
Vinte afirmações, quatro blocos e um perfil, com somas automáticas e comparação entre respondentes.
Fazer agoraA mesma ferramenta em Excel, para preencher em equipe numa reunião.
Baixar .xlsxUma semana anotando cada decisão que passou por você. Mostra onde está o gargalo.
Baixar .xlsxMeio período, seis a oito pessoas e três regras para a conversa não virar um debate.
Baixar .docxPara o dono ou fundador que quer preparar a empresa para a era da IA sem abrir mão do comando nem do que construiu.
Para quem precisa levar a conversa sobre IA a quem decide e conduzir a mudança sem perder as pessoas no caminho.
Para quem tem a responsabilidade de perguntar como a empresa vai funcionar nos próximos dez anos, com respeito por quem a trouxe até aqui.
Para quem desenha organizações e conduz mudanças e quer um modelo confrontado com a literatura de gestão, com as objeções à vista.
O livro não esconde as tensões da própria tese. Responde de frente a quem acha que dá para transformar por dentro, a quem teme a canibalização e a quem lembra que Deming condenava a competição interna.
Porque isso é possível, mas depende de condições raras. A Haier, o precedente mais próximo do modelo de células do livro, foi transformada pelo próprio fundador, Zhang Ruimin, ao longo de trinta anos, com controle quase absoluto. A Kimberly-Clark também mudou de dentro, conduzida por mais de uma década por um executivo de carreira. O caso comparável da ABB recuou depois da saída de quem o conduzia. A proposta do livro tenta tornar essa lição mais acessível: em vez de transformar a empresa inteira ao longo de décadas, construir ao lado, pequeno, algo que aprenda depressa. Mas o livro é claro: se você tem um fundador no controle, horizonte longo e disposição para transformar de dentro, talvez o caminho da Haier seja o seu. Essa objeção continua em aberto no Capítulo 25. (Capítulos 4 e 25)
Não, e o livro concorda com quem critica o spin-off. Cinco livros recentes sobre inovação corporativa, de Lead and Disrupt a Corporate Explorer, recomendam não separar completamente a unidade nova da empresa-mãe, e Scott Anthony e seus coautores perguntam por que alguém faria isso em vez de entregar o dinheiro a um fundo de investimento. A Agêntica não é uma startup financiada e solta. É uma empresa do mesmo grupo, governada com a participação de quem construiu o negócio e ligada à Original por contratos que lhe dão acesso a clientes, dados, licenças e pessoas. A discordância que resta é sobre onde traçar a fronteira: o livro defende uma casa própria para a forma de coordenação, e admite que essa distinção ainda não foi testada. (Capítulos 11 e 25)
Ficam mais valiosos, e não menos. Quando a fluência com a ferramenta fica barata, o conhecimento do negócio fica caro, e esse conhecimento está com quem tem anos de casa. A pesquisa de Binns, O'Reilly e Tushman conclui que "os melhores exploradores corporativos são veteranos internos". Na proposta, quem construiu o negócio escolhe pessoalmente os veteranos que vão para a Agêntica, um a um, com caminho de volta garantido. Os que ficam na Original têm papel na parceria: são mentores, segunda opinião das células e conduzem a auditoria qualitativa que protege a confiança dos clientes. O cuidado é não deixar ninguém se sentir "cidadão de segunda classe", e isso vale tanto para quem vai quanto para quem fica. (Capítulos 7, 9 e 12)
Se a Agêntica passar a atender uma parte crescente dos clientes, o grupo ganha, porque a receita migra para uma forma mais produtiva de trabalhar dentro de casa, levando junto os mesmos clientes, os mesmos valores e muitas das mesmas pessoas. O livro descreve quatro desfechos: a Agêntica fica num nicho que a Original atendia mal; cresce e atende cada vez mais clientes do grupo; a Original adota boa parte do seu jeito de trabalhar, talvez o melhor desfecho; ou ambas perdem para um concorrente de fora. Esse último é o argumento mais forte para começar. Além disso, a liderança define desde o início que clientes cada empresa atende e onde elas colaboram, e a transferência de clientes acontece junto com as pessoas que os conhecem. (Capítulos 19 e 26)
João Paulo Batistella começou como estagiário de engenharia de software e chegou a CEO. Foi COO e CEO da Ericsson Inovação, onde conduziu a virada de uma operação com mais de 300 pessoas, liderou sistemas de receita da Telefônica | Vivo e foi vice-presidente de Customer Service da Amdocs. Hoje é fundador e CEO da Eleva Technologies.
No caminho, aprendeu que a tecnologia quase nunca é a parte difícil de uma transformação: a parte difícil são as pessoas, o controle e o medo de perder o que funcionou.
“A empresa comprou velocidade e a guardou numa fila.”
“Quem construiu o negócio não errou. Acertou para um mundo que está mudando.”
“Não precisamos acabar com a liderança. Precisamos repensar onde a liderança realmente agrega valor.”
“Quando a fluência com a ferramenta fica barata, o conhecimento do negócio fica caro.”
“O gargalo não desapareceu. Mudou de lugar.”
“Um legado inteligente não é um legado guardado num museu, nem um legado posto de lado em nome da novidade. É um legado que continua trabalhando.”
Transformar de uma vez, por dentro, a empresa que deu certo costuma falhar, mas criar uma rival também. O argumento do livro para uma terceira via, e as objeções sérias que ele não esconde.
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